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Via passar a paisagem pela janela, algo parecido com que acontecia em sua vida...a todo momento a paisagem mudava com uma velocidade imensa e ele ali parado, sentado, arrastando chinelos nos pés, esperando a próxima parada onde poderia acender seu cigarro que acalmava a ansiedade que fazia seu coração palpitar...quantas coisas felizes deixara passar em sua vida com o simples medo de sofrer...achava que o que tinha bastava, embora sentisse um enorme vazio e uma angústia vez ou outra atormentando o juízo...aí é que vinha a falha pois permitia-se errar para aliviar a sua dor...adorava seu comodismo...era mais fácil conviver com o que conhecia do que com o que não conhecia...pelo menos sabia o terreno que estava pisando, embora não gostasse...sempre havia uma parada, assim como as viagens...não sabia aonde tudo ia chegar ou se ia chegar...detestava a idéia de ser um ser humano...ser humano dava muito trabalho, tem que trabalhar, estudar, ser corretamente ético, amar, ser sociável e detestava tudo isso...sofria, fazia sofrer, mesmo sem querer magoar alguém, sempre magoava...alguns aceitavam calados e deixavam passar, outros não...cobravam e o julgavam até a morte...era difícil sim...a parada se aproximava, pegava a carteira e o enorme prazer do primeiro trago...enchia os pulmões daquela fumaça e soltava pelo nariz...o frio, o fez tomar aquela velha dose de cachaça...desculpa esfarrapada pois poderia estar calor e mesmo assim tomaria aquele liquido que queimava a garganta...não sabia aonde chegar...não sabia como parar...fingia para si e para com quem convivia que estava tudo bem e ali covardemente fugia...mas não se pode fugir de si mesmo, nem de seus pensamentos...lembra do bilhete que deixou em cima da mesa...pensou como reagiriam...e ninguém sabia que estava ali...pela 1º vez tomou uma atitude corajosa e mesmo assim não assumia seus sentimentos...viu ali perto crianças brincando, um senhor que ficava calado com o olhar fixo para o nada, outro fazia sanduíches rápidos para os passageiros que iriam logo embarcar, um bêbado sem consciência – logo riu e pensou que poderia ser ele. Uma mãe amamentando...um casal feliz...pensou que não queria ser nada daquilo...uma lágrima escorre no canto do olho e ele enxuga rapidamente pq homem não chora...uma cachorro fica a seu lado...parece que ouvia seus pensamentos...ele fica ali parado...poderia ser um cachorro que ninguém se importa...rapidamente vê sua carteira de identidade e não se identifica...como um papel poderia dizer quem era?...não se identificava em nada ali...era apenas números que servia para fazer os poucos cartões de crédito que havia em sua carteira...não sabia quem era...tinha nome forte, mas era um fracasso... Luís...Luís ... parecia luz...mas sua escuridão era maior de todas que tinha visto...sobe novamente no ônibus sem saber que rumo tomar...alías rumo é uma palavra que não conhece a muito tempo...tempo é uma palavra também sumida em seu dicionário...e vida é o que espera buscar quando retornar pela mesma estrada, entrar pela mesma porta e viver tudo que pensou em deixar pra trás...e quem sabe pegar um ônibus da próxima vez que não o retorne para o mesmo lugar...